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vida à toa

cronicas surrealistas de uma estudante de biologia

Cátia Santos © all contents reserved. Com tecnologia do Blogger.
9h25. Gent, Bélgica...

... E chove a potes lá fora. Acabo de chegar à minha faculdade, equipada com umas calças impermeáveis e o meu casaco preto (também impermeável). Tivesse  eu me dado ao trabalho de pôr algum tipo de maquilhagem e iria parecer o Joker, mas como o meu ritual matinal apenas envolve colocar um bom creme hidratante e um pouco de BB cream, só pareço um gato ensopado quando entro no elevador. O meu cabelo está num desalinho e tento ignorá-lo enquanto me olho ao espelho.

Há algo de estranho nesta imagem e eu sei exactamente o que é: pareço belga. Não me importo minimamente com a chuva lá fora, embora não a aprecie minimamente, e independentemente dos 5ºC que o termómetro da farmácia marcava na rua, o calor de ter vindo de bicicleta dá-me um tom rosado às bochechas. Estivesse eu em Portugal, e sabia que a probabilidade de sair à rua com este tempo de bicicleta era inferior a zero, mas estou em Gent. E qualquer opção a andar de bicicleta nesta cidade ou é pouco prática, ou mais longa ou... menos flexível.

Chuva: se não a podes vencer junta-te a ela...

Sim, tenho autocarros que me deixam na faculdade, sim estou só a 25 min a pé da faculdade... mas a minha bicicleta vintage é a minha companheira de viagem eleita. Tivesse eu carro aqui, e provavelmente a opção seria a mesma. Gent é, por predefinição, a cidade belga com mais bicicletas por metro quadrado. À semelhança de muitas cidades na Holanda, em Gent andar de bicicleta é quase tão normal como para nós portugueses fazermos uma viagem de carro de 500 m para ir ao mini-mercado. A lógica por detrás deste hábito: minimizar o impacto ecológico e ganhar qualidade de vida.

Por muito estranho que pareça, andar de bicicleta é aquela rotina diária que adquiri com maior facilidade ao viver em Gent, e uma das rotinas que mais aprecio.  Não só tenho um boostzinho matinal de exercício, o que me deixa desperta para o dia de trabalho, como me dá plena liberdade de movimento na cidade. Adicionalmente, Gent é só uma das cidades mais bem adaptadas ao uso da bicicleta. Em quase qualquer sítio se encontra um local para guardar uma bicicleta,  ciclovias abundam  e quem conduz de carro é (geralmente) atento aos ciclistas. Gent é uma das cidades que considero mais seguras para andar de bicicleta... e no entanto o único acidente que tive numa bicicleta foi nesta mesma cidade. Uma história que remota a Janeiro de 2013 e que conta como personagem principal eu, um carro SUV e um final feliz (bem, bem no final...) de uma aluna em ERASMUS  que acabou por fracturar apenas umas quantas vértebras.


Ainda assim ando de bicicleta, ainda assim continuo a usar a minha pequena vintage como veículo predilecto em Gente. Eu e quase toda a gente...

Umas mais vintage ( e coloridas) que outras, nesta cidade há bicicletas para todos os gostos. Regra é andar de bicicleta e, não ter uma é, literalmente, indispensável. Como um carro, com o benefício que a única gasolina que usa é as cervejas belgas que por aqui se bebem ou as waffles de liége (ou bruxelas) que encontramos no centro da cidade.

E assim me movimento todos os dias, por os cantos e recantos desta bela cidade. Há muitas coisas das quais sinto falta quando estou fora de Gent e, definitivaente, uma delas é o uso da minha velhinha bicicleta. Outras incluem as imensas cervejas de abadia (e não só) que são produzidas por este pequeno país fora, o chocolate, as Ribs do Amadeus... mas a essas coisas hei-de voltar um outro dia. Independentemente de todo, há uma coisa em Gent que no entanto não sinto grande falta (ou nutro qualquer tipo de afecto, na realidade...) é da chuva. Mas como a chuva é o segundo fenómeno mais comum em Gent a seguir a andar de bicicleta, não tenho grande hipótese senão enfiar as minhas causas impermeáveis e continuar a pedalar. Afinal, se há coisa que aprendi, é que a chuva não morde: apenas molha. E um banhozinho gelado matinal de vez em quando até faz bem para tonificar a pele... ou pelo menos assim prefiro continuar a pensar.


__________
Cátia



Centro de Gent (direita) e um barco café num canal de Gent (esquerda)
Muitas vezes dou por mim a pensar que vivemos numa sociedade estranha. Desvalorizamos aquilo que nos torna únicos, procurando quase que desesperadamente adaptarmo-nos às tendências da moda ou às espectativas dos outros, e vendemos ao desbarato a nossa singularidade. Foi-nos ensinado que devíamos estudar para "ser alguém" na vida, ter um bom emprego e perspectivas de futuro... E então saímos das nossas universidades para o mundo, fazemos um currículo bonito, e enviamos sem obter muitas vezes sequer uma resposta. Trabalhamos para ganhar dinheiro e ter uma vida confortável, às vezes desdobramo-nos em empregos ou enfrentamos horas extra para ganhar mais uns trocos ou subir na carreira profissional, abdicando do nosso descanso, família e vida social. Por estas razões e por muitas mais vivemos cada vez mais stressados e banalizamo-lo como se de uma gripe se tratasse.


Caracterizamos o nosso stress como uma coisa passageira, inofensiva e unidimensional quando na realidade o stress não só é responsável por alterações emocionais, como também por alterações físicas e cognitivas. Entre outros efeitos, o stress pode produzir alterações como a ansiedade, aumento da tensão arterial, doença coronária, depressão e mesmo enfarte do miocárdio. Ou seja, que pode provocar alguém é capaz de adivinhar? Em casos irreversíveis: morte. 

Assumindo que agora retenho um pouco mais da vossa atenção, passo a explicar a razão pela qual hoje decidi ficar-me pela temática do stress...

Segundo um relatório da Agência europeia para a Segurança e Saúde no trabalho, Portugal está entre os países da europa cujo o índice de stress laboral (59%) é mais elevado. Desde o volume de horas que um trabalhador em Portugal está sujeito à insegurança laboral e financeira dos mesmos, este facto não me causa grande surpresa. Apesar de o mesmo não me causar grande surpresa, no entanto não deixa de suscitar alguma inquietação. E porquê, ora bem…

Porque atrás de um trabalhador vem, frequentemente, uma família… o que me leva a questionar as mais variadas coisas nomeadamente:

Que impacto tem este stress nas nossas estruturas familiares? De que forma vão alguns destes trabalhadores – colegas de trabalho, filhos, conjugues e pais ou mães – condicionar os níveis de stress de quem os rodeia? Em termos individuais, que tipo de apoio têm efectivamente para lidar com o stress? Quão abertos estamos enquanto sociedade para debater este assunto com transparência e seriedade?

A impressão que eu tenho é que estas perguntas carecem ainda de resposta. Parte do problema vem porque não nos preocupamos com o stress, desvalorizamo-lo no nosso dia-a-dia e dessa forma tornamo-nos cada vez mais reféns dele. Se por um lado já desvalorizamos o stress laboral, então outras “coisas” como o stress social ou o stress infantil nem cabem na nossa cabeça.

A verdade é que somos cada vez mais indivíduos cronicamente stressados e que este stress começa cada vez mais cedo. Desde pequenos, no próprio sistema educativo: associado à carga horária lectiva diária ou à pressão excessiva sobre as crianças para melhorarem o rendimento escolar. Agrava-se à medida que se envelhece e transitamos para o stress relacionado com a incapacidade de encontrar trabalho ou o stress induzido pelas nossas relações interpessoais que vão e vem, deixando mais ou menos marcas.

Assim, em períodos mais ou menos prolongados das nossas vidas, vamos lidando cada vez com cargas maiores e mais intensas de stress e vamos aguentando. Aguentamos até não dar mais, procurando as mais diversas (e nem sempre correctas) formas de escape. Aguentamos porque tem de ser, porque ter “stress” é banal e ceder a ele é coisa de “fraco”… e aguentamos às vezes até não dar mais.

Depois vem o resto. Mas quando isso acontece, já ninguém se lembra que tudo começou por aquele inofensivo stress… Este sai, inocente, sem que ninguém lhe aponte qualquer dedo. E assim vamos banalizando-o, e vamos tapando os olhos reféns dele, quais mártires suicidas, abraçamos a nossa condição de cronicamente stressados como se de um aumento do IVA se tratasse.

E quando nos perguntam como vamos, e comentam que temos um ar um pouco mais cansado lá vamos sorrindo e encolhendo os ombros:

“Ah, não é nada… só ando um pouco mais stressado!”


__________
Cátia 

"Stressado é sobremesa escrito ao contrário"... E uma forma de lidar com ele.

A vida é feita de sonhos
Que crescem connosco.
Nascem e renascem,
E às vezes desfalecem,
Como brisa fresca em pleno Agosto

Alguns desses sonhos voltam,
Renovados.
Refrescam-nos os sentidos,
Transbordam a nossa alma,
Incendeiam-nos com infinitas possibilidades

E depois há os outros,
Que por outros lados ficam,
Em terras distantes,
Guardados e esquecidos,
No álbum das nossas memórias passadas.

É que mesmo sendo a vida feita de sonhos,
Mesmo sendo esses sonhos,
A cada instante fugaz,
Energia e rumo que dá sentido à vida...
Nem todos os sonhos são feitos para viver.

Há alguns sonhos que são um percurso,
Uma paragem breve numa aprendizagem chamada vida,
Até realmente nos cruzarmos com os sonhos
Que nesta curta e fugaz vida,
Valem a pena ser vividos.


(original)


Há momentos que nos marcam, sonhos que por mais loucos que pareçam nos movem... até ao infinito das nossas barreiras! Todos os dias quebramos barreiras, todos dias vivemos em função de um sonho, mesmo que não seja particularmente evidente.

Eu tenho um sonho (multiplicado por quase uns outros mil desejos) de me tentar superar todos os dias. Superar enquanto pessoa, superar academicamente... e nesta auto-descoberta uma parte importante tem sido as minhas constantes estadias em Ghent, Bélgica, onde me "adoptaram" enquanto aluna de doutoramento ao financiarem os meus estudos. Tem sido um percurso feito de desafios, mas sempre em prol de um sonho maior que é o de poder continuar na investigação fazendo aquilo que realmente mais gosto: estudar aves marinhas. 

Estar fora implica, porém, afastar-me da família e amigos com quem fiz parte do meu percurso académico ou com quem cresci... E ao mesmo tempo ir para o lado de lá implica rever amigos que criei num país distante e tão diferente de Portugal.

Vivo, por isso, constantemente dividida, qual pessoa bipolar, entre cair no temor da saudade dos que deixo versus a felicidade por aqueles que vou reencontrar. É um sentimento agridoce, é viver com um coração dividido pelos afectos, mas mesmo assim caminhar num limbo sem fim. Curiosamente, a sensação não muda com o tempo nem com a perspectiva... sempre que sei que as estadias são longas, o coração aperta-se até ao limite para apenas descontrair quando chego ao destino.

Amanha, parto numa dessas viagens que movem o meu sonho. Sinto aquele torpor de sempre, evito como sempre o rol de despedidas até que chega impreterivelmente à hora de deitar e dou por mim a contemplar o meu quarto. Recolho dele todos os detalhes, deito-me na cama absorta, respiro fundo e fecho os olhos enquanto escuto o silêncio. Amanhã o cenário será diferente, a cama uma velha "estranha" e o calor apenas do meu aquecedor, e ainda assim estarei em "casa" novamente. 

Há, por isso, sonhos que nos dividem, que fazem de nós nómadas... até um dia nos levar ao ponto onde sempre estivemos quase que predestinados a chegar. Até lá, resta-nos apenas continuar a caminhar (ou voar).


Fica esta reflexão, dedicada em particular a todos os portugueses por esse mundo fora.

Um bem hajam,

Cátia








Chegou o momento. Foram meses de espectativa (ou não), duas semanas de intenso debate político onde se discutiu tudo (toda a roupa suja dos candidatos) e se viu muitas pessoas a darem beijos a feirantes na rua. Domingo é o dia D! E não, não me estou a referir ao desembarque na Normandia. Esse já lá foi há muito…. Domingo é dia de eleições presidenciais, e a sensação que eu tenho é que estou no mesmo ponto em que estava antes de a campanha eleitoral ter começado: a zero.

Temos 10 candidatos (já chegámos a ter 22, podia ainda ser pior...), dos quais só 6 acabei por conseguir decorar e associar o nome e a cara... Não obstante o facto de ser um (bom) sinal de democracia, tanta gente tornou a campanha eleitoral numa tremenda salgalhada e dos 10 (nem dos 6) candidatos fiquei a saber grande coisa. Tirando deste rol o Tio Marcelo, esse já "conhecido" dos serões de domingo a discutir política na TVI (já agora, isso não deveria ser considerado uma espécie de pré-campanha pessoal?...), fiquei sem sentir se algum deles tinha realmente o perfil para ser Presidente da República.

Mais difícil se torna a escolha quando, por si só, é difícil conseguir saber quais são as funções do Presidente da República (visto que já não temos um faz algum tempinho...). Não estamos só a eleger uma pessoa para ir a festas, ver ranchos a dançar em feiras tradicionais ou discursar sobre o empadão de frango que se tornou património da humanidade... Estamos a eleger o chefe de estado com poder supremo sobre as nossas forças armadas, a pessoa responsável em último lugar por aceitar ou vetar as leis, dissolver a assembleia, declarar estado de emergência, declarar guerra ou paz e, principalmente, zelar pelos Portugueses.

Eu reflecti muito sobre a temática, não foi fácil, e foi por isso que decidi... Votar por sorteio! Peguei nos nomes dos 6 cuja cara ao menos conhecia, pus num saco preto e, depois de pelo menos1 minuto a mexer bem, tirei o papel do meu vencedor. É por isso meus amigos que, domingo eu voto... "Tino de Rans"! 

 Ora então vejamos... É um verdadeiro homem do povo, é do norte, é calceteiro (sem qualquer curso na Moderna ou na Universidade Independente), quer ser o Messi de Portugal (terá alguma coisa contra o Ronaldo?) e enquanto todos os candidatos no debate conjunto esgrimiam ataques (pessoais) uns contra os outros, "fez rabiscos" porque aquilo não lhe "interessava". 

 Ok, talvez ele falhe porém em todos os aspectos que considero importantes num Presidente da República. Logicamente, isso inviabiliza um pouco o meu voto, mas não inviabiliza o facto de ter sido o único candidato a trazer um pouco de "tino" ao que se deveria ter discutido. Não acredito que, com esta candidatura o Vitorino acreditasse mesmo que ia ser eleito... A mim parece-me que ele é bem mais inteligente do que aliás quer aparentar. Sei que ele soube satirizar o papel do poder político com humor, de forma apartidária, e sem receio de chegar a todo o povo dormiu com os sem-abrigo. Em última instância, lembrou aos políticos-modelo que o poder É do POVO...  e que é junto ao povo e ao encontro dele que o Presidente da República (sem adereços, sem primeiras damas ou outros adereços) deve ir.

Na prestação do Tino, ficou só mesmo a faltar... Os rabiscos! Se alguém o conhecer podia falar com o Tino para entrar em contacto comigo? É que eu adorava de uma cópia dos rabiscos. Nunca se sabe se daqui a uns anos a coisa pode vir a valer tanto quanto um quadro do Picasso, e eu estou em Ciência minha gente. Há que fazer pela vida…

Até à próxima, 

Cátia


Há pessoas que são autênticas bestas. Bestas quadradas, brutas, idiotas… enfim pessoas que, não fosse a forma física humanoide em tudo poderíamos confundir com alguns animais e “bichos do mato” ferozes (sem ofensa aos pobres dos bichos…), movidos unicamente pela sua natureza mais bárbara e cruel. O conceito de besta humana, no entanto, é um termo ambíguo. 



Numa experiência - extremamente científica diga-se de passagem- realizada por mim recentemente (durante o jantar…) e com uma amostragem de pessoas inquiridas  representativa (o meu pai e a minha mãe…), foi possível concluir que, entre outros adjectivos utilizados para descrever o conceito de "besta humana, predominaram os termos: ausência de maneiras e boa educação, rudez e “Hitler”. Não satisfeita com o input recebido, decidi então consultar uma terceira fonte informativa, idónea e possivelmente mais transversal: o dicionário online da Infopédia (com o acordo ortográfico até, só para salvaguardar o “rigor” e multiculturalidade do termo…).




In www.infopédia.pt 


Apesar dos pontos de convergência entre a Infopédia e a definição anteriormente esboçada pelos meus pais, e de ter identificado ali a existência também de uma segunda versão humana de besta que ainda não me tinha anteriormente ocorrido, a besta de carga (ou como se usa na gíria local, os "burros de carga”), pude concluir que o conceito tem sempre um elevado teor desubjectividade... De facto, cada um de nós acaba por definir um pouco à sua maneira o conceito de bestas humanas, o que se traduz invariavelmente na nossa experiência empírica na área através dos exemplares com os quais nos cruzamos na nossa vida. 

Pessoalmente, eu defino as bestas humanas (doravante, Homo sapiens sapiens bestia) como todo o dito H. s. sapiens cuja conduta prima pela ausência persistente de respeito pelo próximo e/ animais, comportamento rude, idiotice e, acima de tudo, desprezo pelo bem estar físico e moral de outro ser vivo que não o próprio. É óbvio que há vários graus de bestialidade… Todos nós temos um pouco de bestas (e podemos comportarmo-nos como bestas) de tempos a tempos, mas os verdadeiro H.s.s. bestia têm, normalmente, um prazer particular em serem bestas - penso - e primam pela originalidade (e crueldade) das suas acções "bestiais".

O último caso de besta humana com o qual tive o (des)prazer de familiarizar-me através de um jornal local, e que suscitou em muito este artigo, foi uma pessoa que se lembrou de abandonar um cão acorrentado num local deserto, sem água e comida, para morrer à fome. Felizmente, para o amigo de 4 patas, o "bestia" não consegui cumprir o seu objectivo, já que alguém deu pelo sucedido e o probre animal foi resgatado. Infelizmente, porém, este triste animal não foi o único… Ao que parece, abandonar animais e deixá-los presos para eles não possam procurar comida e sucumbam à fome e à sede tornou-se a nova prática entre estas “pessoas” … Uma espécie de tendência Outono/Inverno na área o que me indigna até ao tutano. Isto levou-me ainda a reflectir um pouco sobre o assunto

Claramente, a reformulação da moldura penal dos maus-tratos a animais feita em 2014, e que passou a contemplar a pena de prisão (até 2 anos, em casos de maus tratos extremos), não é ainda assim motivo suficiente para desencorajar este tipo de práticas. Claramente, os mecanismos de sensibilização, alerta, e denúncia de contra os maus-tratos em animais não estão ainda agilizados para prevenir este tipo de situações. É por isso que queria fazer um apelo sentido:


“AMIGOS”, SE: não gostam de animais, não têm condições/tempo para os tratarem com amor e dignidade, e/ou não os querem… deixem-nos em PAZ! Eles não vos fizeram mal nenhum para terem de aturar os vossos acessos inconstantes de afecto vs desprezo, muito menos  o vosso abandono e violência… 

Gostam de criar uma “animal” e depois maltratar/ abandonar… comprem um TAMAGOTCHI! Gostam de dar pontapés em coisas, comprem um saco de boxe em casa ou batam/ pontapeiem uma parede… Se doer, pode ser que aprendam! Façam qualquer coisa, mas por favor não comprem, não criem, não adoptem ou nem decidam agredir na rua (só porque sim) um animal. 

Não ganham nada em ser assim, apenas problemas e, se houver alguma casualidade no universo e reincarnarem no futuro, um Karma nada simpático.


Aos H. s. sapiens comuns, fica o desabafo.  Há muitos outros tipos de bestas que conheço e me irritam, mas esta classe é uma das que mais me revolta. Sendo eu dona de 3 cães adoráveis, dois canários super fofos e um peixinho dourado… desde pequena aprendi a respeitar os animais. Toda esta bicharada é alimentada principalmente pelos meus pais, confesso, mas em casa retenho o dever de levar os patudos às vacinas, pagar a licença anual e… mimá-los de forma copiosa quando estou por terras lusas. Mas cá entre nós (e em tom afável de remate)…




… com patudos com um porte tão sexy e afável como o Boss, a Ísis e a Maggie (da esquerda para a direita)… o difícil é resistir.

Esperando ao ter ferido muitas susceptibilidades, hoje fico-me por aqui.
Até um próximo post à toa,

Cátia



Começar o vida à toa sem falar de umas das coisas que mais me apaixona na vida faria pouco sentido, por isso mesmo não poderia deixar de contar um pouco a história de como caí no mundo da Biologia. Era nova,  inocente... devia ter os meus 7 anos de idade quando o bichinho pela Vida Selvagem existente nas vastas planícies da Savana e ricas florestas da Amazónia começou a entrar na minha casa através da televisão, narradas pela inconfundível voz de Eduardo Rêgo.

Nessa altura nada sabia do que era Biologia, mas fascinava-me ver  na televisão dos meus pais a dinâmica familiar dos leões. As suas longas sestas (afinal de contas, os leões machos retêm a fama de dormir 20h por dia...), as crias, e as suas milimétricas manobras para arrebatarem o jantar, frequentemente um gnu ou uma zebra matando a sede de forma pouco cautelosa num charco da savana. Cedo comecei a imaginar-me no papel daqueles repórteres, vivendo em tendas dias a fim para conseguir a melhor história, aquela perseguição da presa perfeita ou o aguardado cair das primeiras chuvas, catártico, para toda a savana… Com a mesma volatilidade de uma criança tão depressa decidi, porém, que queria ser em vez disso médica veterinária e nadadora salvadora, qual heroína das Marés Vivas prestes a mergulhar no perigo para salvar um incauto banhista na praia da Barra. Era um plano exequível - assim pensava - e útil. Mantive o sonho durante um ou dois anos, até que uma onda de ataques de peixe-aranha levou alguns banhistas da zona para o hospital e revoguei o meu sonho de ser a próxima Pamela Anderson. A ideia de ser médica veterinária dissipou-se, igualmente, pouco tempo depois quando a minha mãe, qual ser sem coração, me informou que depois ia ter de eutanasiar os “cãezinhos” doentes...

Eduardo Rêgo, locutor do Vida Selvagem (em exibição na SIC todos os fins-de-semana às 12h00)


Passaram-se anos, e fui continuando a ver fielmente o BBC Vida Selvagem, o ex-libris a meu ver da National Geographic, todos os fins-de-semana, assim como fui lendo outras publicações em revista como “Super Interessante” ou mesmo a edição em papel da “National Geographic”. O interesse continuava lá, mas ia-se intercalando pelo interesse por outras ciências como a ecologia, a física, a química e, claro, a astronomia. Quis ser um pouco de tudo, mas aquilo que sempre foi comum pensar durante todos aqueles anos é que o que eu queria mesmo ser era… cientista! Nisso eu lá acertei, é certo, mas foi só no secundário que, em grande parte influenciada por duas grandes professoras de biologia, que fiquei rendida área e caí nesta teia maqueavélica da Biologia!

Foi um desgosto tremendo para a minha mãe, à data, chegar à conclusão de que não ia ser médica ou outra “profissão importante” na área, mas a partir do momento em que lhe aparecia em casa com os olhos a brilhar e a falar de um tal Sr. Darwin ou tentar explicar coisas como a “genética mendeliana”, ela acabou por relutantemente aceitar que estava perdida. Assim foi, e assim entrei mais tarde em biologia na universidade de Aveiro para aprender que… nada sabia realmente do que era a Biologia. Por entre semestres aprendendo coisas mais lógicas desde as várias formas de biodiversidade existentes no nosso planeta terra ao estudo de fenómenos “invisíveis” como o funcionamento dos processos intra-celulares essenciais à manutenção da vida… fui atirada para um mundo bem mais vasto (e interessante) do que antes tinha imaginado.

Foi também na licenciatura que tive a minha primeira experiência em “investigação” num laboratório da Universidade de Aveiro. Lancei-me assim na ecologia e toxicologia ambiental, ou seja, no estudo do efeito dos contaminantes no ambiente nos seres vivos que nele habitam, e por esta área fiquei. Da licenciatura lancei-me no mestrado, mudei os meus organismos foco de estudo, e de peixes e dáfnias passei a olhar para as aves. Com cada dia que passava, até hoje, fui criando a convicção de que realmente investigação era realmente “ a coisa” … “the thing”.  

Acabei o mestrado com a certeza de que queria fazer doutoramento, mas saí pela primeira vez de Portugal para ir ao encontro de novas linhas e perspectivas de investigação. Foi assim que comecei as minhas viagens para a Bélgica, mais concretamente Gent, onde fiz um estágio ERASMUS e tive a oportunidade de prosseguir com os meus estudos na mesma linha de investigação até hoje. 

Não foi um percurso fácil, mas hoje aqui estou. No início do meu terceiro ano de doutoramento, com muitas histórias e peripécias pelo meio por contar. Olho para trás e tenho a certeza de que não mudava uma vírgula no que fiz. Cometi erros, e aprendi com eles… Tornei-me uma pessoa com uma visão mais ampla do mundo e tive a sorte imensa de conhecer neste percurso pessoas inspiradoras que espero um, dia, poder dar também a conhecer neste espaço. 

É um lugar-comum perguntarem-me depois do doutoramento o que tenciono fazer. Trabalhar em investigação em Portugal, nos dias de hoje, é no mínimo um desafio (e um tema para um ou mais tópicos diferentes). O dinheiro, como em tudo, escasseia... E a verdade é que poucas pessoas têm a percepção real da importância que tem a produção científica na nossa sociedade. Somos muitos, fazemos coisas tão diferentes… e que frequentemente passam ao lado do Srº João ou da Dª Manuela cuja principal preocupação é, e bem, conseguir esticar o seu ordenado até ao fim do mês. Com um pouco de sorte, eles vão confundir-me com uma ativista da Greenpeace e pensar que sou apenas uma chata ambientalista… 

Temos, em ciência, um problema central: passar a um público não alvo, frequentemente menos informado, o que fazemos e porquê. Pior, temos a tarefa herculana de tentar mudar a forma de pensar da indústria e do sistema financeiro (capitalista até ao tutano), dos senhores que se acham donos do mundo e que estão “pouco se maribando” para as actividades que conduzem e fragilizam de forma progressiva o planeta em que vivemos. Tudo isto requer diálogo e uma luta constante, invisível e frequentemente pouco reconhecida pela nossa sociedade. É inglório ser cientista em Portugal, é um facto, mas de todas as pessoas que como eu vão tentando sê-lo, não é a glória e muitos menos o ordenado que nos move.

Trabalhamos em ciência porque gostamos, porque nos apaixona… Trabalhamos sem sermos sequer considerados trabalhadores -até porque a nossa legislação laboral não nos considera como tal- e se quisermos descontar para a segurança social temos de o fazer de forma voluntária. A maioria de nós não tem (nunca teve) o 13º mês, direito a férias ou licença de maternidade/paternidade. Nenhum banco nos concede a título individual um empréstimo e se ficarmos doentes, não temos subsídio de doença. Vivemos de bolsas, e às vezes nem essas são regulares, que a FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia) atribuí de forma mais ou menos parca (emais ou menos idónea) nos concursos que tem aberto nos últimos anos.´

Ainda assim, e sabendo que estas são as minhas parcas perspectivas, estes são os meus desafios caso queira manter-me neste mundo… o sonho não desvanece. Porquê? Talvez sejamos masoquistas, loucos ou… simplesmente idiotas. Nos dias piores, eu acho que somos um misto de tudo isto, noutros eleva-se apesar de tudo apenas aquela curiosidade e paixão que nos é inata e nos move… absolutamente irracional. E é essa paixão que eu sei que, invariavelmente, no final me vai levar sempre a sorrir para os meus interlocutores e responder “A seguir, talvez pós-doutoramento!”, enquanto encolho os ombros.

Já sei que eles vão achar que sou louca… Não estão longe da verdade. Soubessem eles o mundo em que vivo e talvez entendessem. Não é fácil explicar a dimensão de tudo o que se pode fazer em Biologia, mas é possível levantar uma pequena ponta deste mundo.

A vocês deixo aquele que é, na minha opinião, um dos documentários mais interessantes realizados em Portugal sobre uma pequena parte da investigação que se faz em Biologia em Portugal. Produzido em parceria com o Departamento de Biologia (DEBIO) da Universidade de Aveiro (UA), foi exibido num dos epísódio do BBC Vida Selvagem na SIC a 30/08/2015 o "Laboratórios de Natureza". Vale a pena ver ou rever.

Um até breve e espero que gostem!
Cátia
















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O meu nome é Cátia, sou bióloga, adoro música e sou apaixonada pela fotografia. Vivo entre dois mundos: um cá (Portugal) e lá (Bélgica) que se intercalam, de tempos a tempos, e que me têm permitido aprender a ver o mundo de uma forma diferente.

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